Devaneios Excessivos
O hábito de criar cenários fictícios na mente pode causar malefícios.
Quando eu acordei hoje de manhã, eu sabia quem eu era, mas acho que já mudei muitas vezes desde então.
Atualmente, diversas pessoas adquiriram o costume de “sonhar acordadas”. Seja para fugir dos problemas, por lazer ou até em decorrência de um fato desencadeador.O que nem todos sabem é que esse comportamento tem um nome.
O denominado Transtorno de devaneio excessivo e mal-adaptativo, conhecido internacionalmente como Maladaptive Daydreaming, consiste em fugir da realidade e embarcar em uma fantasia vívida gerada pela sua mente, fugindo de frustrações e de problemas do mundo real.A prática, que se tornou muito popular entre adolescentes, pode ser um indicativo de ansiedade, TDAH (Transtorno do déficit de atenção com hiperatividade) ou até depressão. O transtorno pode se manifestar por meio de gatilhos como livros, músicas, filmes ou espontaneamente em qualquer hora do dia, podendo ocasionar em dificuldade em manter relacionamentos e no desempenho de tarefas diárias.
É importante ressaltar que o ato de sonhar acordado em si não é considerado um problema, mas sim a frequência dos devaneios, que acabam fazendo da busca pelo irreal um escape para seus sentimentos e pensamentos confusos, deixando de lado suas responsabilidades e atividades cotidianas. Porém, apesar do nome, o Transtorno de devaneio excessivo e mal-adaptativo não é considerado oficialmente um transtorno psicológico no DSM (Manual Diagnóstico e Estatístico de Transtornos Mentais), por falta de pesquisas realmente eficazes, impedindo a classificação do transtorno descoberto em 2002 por um professor da Universidade de Haifa, em Israel.
Os devaneios excessivos podem ser explicados como um delírio irreal, gerado pela mente, com capacidade para durar minutos, horas ou dias. Um exemplo interessante a ser citado é Dom Quixote, de Miguel de Cervantes, afinal, o personagem passa a maior parte do livro perdido em delírios de ser um nobre cavaleiro, confundindo moinhos de vento com gigantes, vivendo em um mundo fictício, onde ele cria uma persona forte e determinada a resolver casos inexistentes, após ler uma imensidão de livros de cavalaria, assemelhando-se aos sintomas de Maladaptive Daydreaming.
Levando em conta os fatos acima, é preciso entender os efeitos deste transtorno para prevenir o prejuízo no cotidiano, compreendendo a origem deste costume, pois não há um tratamento oficial para devaneio excessivo, já que ainda não é reconhecido como um transtorno, mas as abordagens incluem terapia, o que ajuda a gerenciar gatilhos e desenvolver outras habilidades de enfrentamento. Alguns hábitos, como melhorar o sono, reduzir o estresse e a cafeína, além de identificar e evitar gatilhos, podem ser eficazes em alguns casos.




Li isso com uma sensação forte de identificação, como se o texto tocasse num lugar muito íntimo. Essa frase inicial, sobre acordar sabendo quem se é e já ter mudado ao longo do dia, fala diretamente dessa instabilidade do eu, dessa identidade que nunca se fixa por completo. Reconheci-me nessa ideia de viver entre o real e o imaginado, usando o devaneio como refúgio quando a realidade se torna pesada demais.
Pensar em Gaston Bachelard faz muito sentido aqui. Ele fala do devaneio não apenas como fuga, mas como um espaço poético da mente, onde a imaginação cria abrigo para a sensibilidade. O problema não está em sonhar acordado, mas em quando esse sonho passa a substituir o mundo, em vez de apenas nos ajudar a suportá-lo. O texto caminha com muito cuidado por essa linha delicada, sem condenar, mas também sem romantizar.
A referência a Dom Quixote é bonita e triste ao mesmo tempo, porque mostra como a fantasia pode dar força e identidade, mas também afastar do cotidiano. Identifiquei-me (muito eu) muito com essa tensão entre precisar imaginar para continuar e perceber quando isso começa a me distanciar de mim mesmo. Seu texto é sensível, humano e necessário, porque trata o devaneio como abrigo, sintoma e questionamento, tudo ao mesmo tempo. Ficou incrível!! 😁
Você escreve tão bem. Adorei ler o seu artigo, tem profundidade e é poético